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A efêmera celebridade de Félix Alberto Lima



...chega de tanto agora!


Entrevista de Iracy Souza

A poesia, em seu caráter vulcânico, substitui o conhecido no mundo visível por uma realidade que é toda sua. A eficácia expressiva de alguns versos promove uma surpresa perturbadora e nos dá acesso a um mundo excepcional. Quando nos orientamos por alguns estudiosos como Mallarmé, Freud ou Lacan, nós passamos a entender que a ela cabe representar o belo e destruir o banal.

Mallarmé considera: “que há no horizonte da poesia um livro impossível que nunca ousa desenhar-se; desenhá-lo seria abolir o mistério e anular a distância infinita que separa o ideal. Neste espaço sem fim, vacila justamente a alma inquieta do poeta.” Freud que afirma que as artes têm um valor social ligado à sublimação e Lacan ao retomar inúmeras vezes a questão da criação artística entende que a arte, de certa forma, produz um desconforto porque aponta para indizível, o vazio, ou seja, o real.

Nesse sentido, compreendemos que a estrutura da linguagem condiciona tanto o sujeito que percebe quanto aquilo que ele percebe, porém ele, longe de ser unificado e objetivado, é um sujeito dividido e determinado pela linguagem. Essa divisão repercute no percebido, que não é unívoco, na medida em que está estruturado por significantes que organizam a experiência de sua escrita. Mas o sujeito do discurso, que surge no poema, certamente, considera que não escrevemos para o outro, antes para nós mesmos.

Convidamos o poeta, Félix Alberto Lima, para conversamos a respeito de seu novo livro: “o que me importa tanto agora” e de sua poesia, é claro. Em relação a seu labor ele afirma que: “Somos provocados por inquietações, solavancos corriqueiros que nos empurram para essa sublimação de que fala Freud. A poesia surge daquilo que está cru, disperso no chão pedregoso de uma manhã de agosto ou no ermo da alma. Somos escravos da linguagem, abundantemente determinados por ela. A poesia solta-se, desapega-se, quando materializada numa folha de papel. Depois corre solta pela relva, espicha-se em caracteres e ganha o mundo. Mas não perde o visgo. Eis o “livro impossível” jamais desenhado e, segundo Mallarmé, encoberto de mistérios.”

Félix Alberto Lima Lima trilhou dois caminhos complementares: o jornalismo e a poesia para revelar, com sabedoria, suas predileções temáticas e integrar a imagem escrita à imagem sonora que suas composições produzem. Apresenta-nos a luta pela prevalência do poema desprovido dos excessos da retórica, utilizando-se de algumas possibilidades semântica e estética da linguagem, dos símbolos e das metáforas, independentemente, do tempo e de posicionamentos ideológicos.

A obra, “O que me importa agora tanto”, embora escrita na primeira pessoa, confere uma atmosfera atemporal e universal. O título escolhido é simples, despretensioso, legitimado por si. E como toda fala implica duas suposições: a possibilidade de um sentido único e o duplo sentido. Enquanto a primeira persegue um ideal de univocidade, a segunda eterniza sua busca. Há um aspecto de ternura e cumplicidade que atravessa das trevas ao silêncio, como o poema:

passe livre
mais de sessenta anos de idade
uma vida inteira de altruísmo
e olha ele ali ainda
na fila da felicidade


Iracy - Nos dias atuais, o leitor se surpreende com uma poesia, que talvez se possa comparar a um flash de uma máquina de fotografar, que não quisesse apreender a imagem e sim, apenas dar o clique. Talvez possamos atribuir essa atitude as profundas modificações que se desenrolam nas esferas científica, artística e social desde os anos 50. Poeta, ainda é possível pensar que a poesia começa quando o suporte acolhe o gesto, um lugar imaginário é criado e o olhar vê a essência?

Félix Alberto Lima - A percepção cadencia a criação do poema. E a distração confere ao verso o poder absoluto sobre a banalidade do cotidiano. É remexendo nessa combinação que o olhar fita a essência. A poesia começa quando há busca, quando existe um grito abafado lá no fundo, quando a alma vira uma espécie de manifestação ruidosa, quando há uma guerra civil interior. Aí o poema é imagem, som e fúria. Mas é também paisagem quase muda, desejo silencioso e recato. A metáfora, o lugar imaginário, a musa, o olhar fotográfico, tudo é mero anteparo ao poeta na experiência de seus conflitos com a escrita. O jogo de palavras que há entre o ponto de partida (a percepção) e o final da linha (a distração) no processo de criação confere ao poeta a pretensiosa capacidade de compreender o todo, de captar a essência.

acerto de contas
a terapia
me fez remexer
no ontem
e agora o hoje
fica pra
outro dia



Iracy - Como você vê o tratamento da mídia, em geral, para com os poetas e a poesia em nossos tempos?

Félix Alberto Lima - A mídia está tão associada à velocidade da informação que deixa, quase sempre, os poetas e a poesia comendo poeira pelo caminho. Os meios de comunicação têm suas antenas voltadas para a objetividade, que lamentavelmente pressupõe pressa e transforma o jornalismo numa grande gincana diária. O saldo, de um lado, é uma imensidão de notícias superficiais lançadas ao vento e, de outro, o cidadão comum mergulhado no vazio da informação ligeira. Ainda assim a poesia resiste, insiste e aqui e ali, feito uma efêmera celebridade, ocupa um pedaço da calçada da mídia tradicional. A saída mesmo são as novas mídias, a internet, o turbilhão de redes sociais ao alcance de quase todos. Nesse território, o combustível é a inventividade.

revolta

em vida
foi um cigarro
valente
sozinho
amassado
sem maço
ou parente
hoje
cremado
cinzas lançadas
ao vento
restou no copo
a solidão
da guimba.


Iracy - Ser jornalista, lidar com as letras é um facilitador para a condição de escritor?

Félix Alberto Lima - O jornalismo é uma linguagem direta, linear, que persegue a objetividade da informação, diferentemente das variadas linguagens da literatura. Claro que o contato frenético com a escrita no jornalismo ajudou sim. Sem dúvida, a redação de jornal deixou uma marca na minha formação. Mas o jornalismo ficou para trás. Segui outro caminho. Agora o malabarismo efetivo das palavras vai crescendo com as experiências de cada um: intensidade e variedade de leitura, subjetividade do olhar, capacidade de sobreposição da realidade com o imaginário etc.. A escrita é uma livre expressão dessas experiências, que podem ou não estar associadas a uma atividade profissional como o jornalismo. Escrever é experimentar.


Iracy – Poeta, a leitura que fiz do conjunto de sua obra permite interrogar-me a respeito do seu labor poético e dos enigmas de sua escrita. Cada momento de sua poesia pode se tornar ambíguo, não sabemos se ela expressa ou se representa, se é uma coisa ou se a significa; se é transparente por causa do pouco sentido do que diz ou clara pela exatidão com que o diz. Seu trabalho poético com a linguagem revela-se em uma escrita construída sobre alicerces de eixos distintos: o formado pelo próprio som dos vocábulos que confere à escrita um ritmo e o constituído pelas metáforas dissonantes que desarranja os versos promovendo um resultado inusitado.

Você considera que algumas escolhas limitam a liberdade vertiginosa de que o poeta dispõe antes de começar a escrever?

Félix Alberto Lima - A literatura é construída por essa imensa teia da imaginação, logo a escrita está diretamente associada ao exercício pleno da liberdade. Não faço escolhas, não delimito temas, mas escrever também requer uma certa disciplina. Uma leitora me chamou a atenção outro dia sobre um fato interessante presente na minha poesia. Os títulos que atribuo aos poemas acabam levando o leitor a fazer uma interpretação previamente delimitada, porque funcionam como faroletes. Eu, talvez involuntariamente, conduzo o leitor a um caminho que é só meu. E o sentido do poema, uma vez publicado, não pertence mais a mim, segundo a leitora. São dela também – e de qualquer outro leitor - a armadilha do verso, a metáfora incidental, a coincidência no desfecho do poema. Faço minhas escolhas, claro, mas não deixo que elas me aprisionem. E são escolhas iniciais que na maioria das vezes transformam-se ou rebelam-se no meio da jornada.


Iracy - Há poesia toda vez que um escrito nos introduz num mundo diferente do nosso, e, ao nos dá a presença de um ser, de certa relação fundamental, e ainda, faz com que ela se torne também nossa e, por isso, a poesia faz com que não possamos duvidar da autenticidade da experiência do escritor. Nesse sentido, podemos dizer que o sujeito que escreve se inscreve no escrito?

Félix Alberto Lima - A poesia, depois de pensada, de desenhada, de escrita, perde o cabresto, entra num processo natural de desapropriação, é terra devoluta. Perde a propriedade, mas não a autenticidade. As digitais do autor restarão inescapáveis no todo ou num leve fragmento de pé de página. Na poesia, talvez mais do que em qualquer outra expressão da literatura, o autor se desnuda, expõe deliberadamente suas escoriações num confessionário coletivo. Fica o rastro da palavra dita que não se apaga.


Iracy - O poema se desenvolve a partir de alguma decisão ou de um acaso inicial, mas o acabamento estético, o refinamento, esse passar a limpo até que o poema resplandeça. Isso é um jogo, que somente se encerra com a exaustão do poeta? . Como você definiria sua poesia?

Félix Alberto Lima - A poesia que faço não é declamatória, não nasce com essa necessidade de virar um recital. Logo, no processo criativo não me detenho na cadência de versos ou no ritmo da fala. Isso já me dá certa leveza para alcançar um acabamento mais cigano, meio desgovernado, sem rigidez ou culpa. Os versos despretensiosos vão se agrupando ao sabor de uma ideia súbita, de um lampejo transgressor. Essa é a pedra bruta da minha produção poética. Eu definiria essa poesia como um mosaico de palavras sem compromisso ou método, de versos cruzados ao acaso ou manipulados no jogo da simplicidade cotidiana.


Finalizamos nossa entrevista convidando a todos a conhecer na íntegra a obra: “o que me importa agora tanto” e agradecemos ao poeta Félix Alberto Lima pela gentileza, ainda, desejamos cem anos luz a sua poesia!






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Créditos da imagem:
xxx, por yyy

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