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As Carpas do Tribunal



Caratintas, 24/04/2010

Sédulas ouvidoras que nada olvidam,

Eis-me há anos frequentando este E. Tribunal de Justiça.

Digo a custo que, muitas vezes, a torrente cotidiana me faz atravessar estas arcadas imorredouras arremetido como uma aríete pela pressa, adentrando intrépido em suas entranhas repletas de varas, secretarias e turmas, alheio a tudo e a todos, apenas absorto no cumprimento de minhas pendências.

Todavia, quando o girar desta abóboda celeste me permite, paro logo na entrada de nosso Palácio de Justiça ao longo de seu circundante espelho d’água. O motivo é um só: apraz-me ver o circular das carpas.

De início, enquanto este velho olho ainda desacostuma-se das letras e instiga sua função primitiva, nada se encontra. Mas basta dispensar um pouco mais de atenção para entrever o primeiro frêmito na água, leve como um hálito de uma corrente telúrica, consistente apenas em um sussurro sísmico que, quando cessa sua ressonância, desvela às escancaras o dorso radioso de cor vívida, prodígio de beleza, capaz de engessar os transeuntes em fascínio à sua presença idílica.

Ali, os contornos fantasmas de jubilosos damascos, ora alaranjados, ora vermelhos, serpenteiam em um balé submerso que, para olhos destreinados se afigura randômico, porém do qual se pode extrair um alfabeto secreto, promitente do infinito, que, em muito transmite a essência desta insigne Ouvidoria.

Explico-me: assim como a carpa irresoluta enfrenta corredeiras acima para atingir sua conquista, estas estimadas ouvidoras pelejam irrefreáveis no alcance de suas metas, acrescidas, sempre, de majestosa e inquestionável graciosidade.

Porém, redijo o presente manifesto não apenas para entregar-me aos elogios deveras merecidos a essa egrégia Ouvidoria, mas para, naturalmente, relatar à guisa de reclamação e em busca de melhoras. Dito isto: j'accuse!

Certo dia fui vítima de uma irresignação dilacerante, como se ferido estive por horroroso açoite.

Onde estão as carpas? Nada obstante à toda atenção despendida, malgrado tenha procurado, passaram-se semanas sem qualquer cor em nosso quadrilátero aquático.

Seja paciente, eu dizia. As carpas não irão surgir conforme seu querer, esperemo-las, eu repetia.

A ser assim, acompanhei aquele ritmo lacustre imóvel, atendendo a minha espera, que deveria ser paciente, mas também sujeita aos sobressaltos de minha cólera.

Procurei saber notícias das carpas. Ouvi rumores de todos os tipos: cortes de gastos; nova gestão; bactérias fatais; algo sobre um golpe estatal e etc... Contudo, nada do apregoado me convenceu.

Não havia então compreendido, até que um dia, por acidente, a trama mostrou-se nua. Agora, depois de visitar a bruma noturna, agora sei.
Tarde da noite, enquanto percorria a avenida vizinha, visualizei um vulto semicoberto pelo manto noturno. Tanto sua posição, quanto sua localização, se aparentaram estranhas a ponto de despertar curiosidade suficiente para fazer-me estacionar o automóvel.

Lá estava, um homem de expressão indizível, empunhando uma vara de pescar, pronto para fisgar mais uma carpa para seu alforje de estopa úmida, volumosa e ainda viva. Um homem que, tal qual o bucéfalo anácrono que furtou os bípedes palmípedes de Rui Barbosa, estava a profanar o recôndito desta Casa de Justiça levando seus potamódromos de nadadeiras multicores à sorrelfa e à socapa.

Ao inteirar-se de minha presença fez menção de dissimular seu afazer ilícito ou ocultar-se, mas como admitiu ter sido flagrado, logo juntou seus pertences, inconcebíveis ao contexto urbano, e pós-se a correr.

Ignorando a prosopopeia do herói, com mais medo da fadiga do que do vil pescador, deixei o patife livrar-se em sua carreira bêbada e desenfreada, retardada apenas pelos volumes, porém orientada com a expertise do reincidente.

Diante de tal espantoso vilipêndio à soberania desse Alto Areópago alternativa não há senão relatar o ocorrido a esta preclara Ouvidoria, cônscio de vossa lucidez e presteza. Serei vós quem o deves levar a termo para que se busque o saneamento dessa sangria desatada.

Uma vez que minha memória anda em falta, não consigo precisar, ao certo, as especificidades do transgressor, mas se forem amigos deste infrator de caráter eivado pela mesquinharia que busca todas carpas para si, ou pior, para seu estômago, delatai-o. Se, por algum acaso, encontrar-lhe novamente fisgando às escuras, não contemporize, vibra-lhe um golpe ribombante no alto de sua miudeza encéfala ou arremeta-lhe na água com um futebolístico chute in posteriori parte spine dorsi, certo de que aquele mísero gazeteiro não é movido por necessidade, e sim por esporte, sendo, apenas um carrasco por natureza, cerceado pelo cenário citadino.

Todavia, caso julguem bárbaras por demais minhas solicitações, orientem os doutos gestores a redobrar a guarda à terceira potência e reforçar os piquetes para evitar o trespasse ladino, aqui delatado. É o que, desde logo, se requer.

SAPIENTIA, SALUS, STABILITAS.

Saudações, Francisco Gomes da Silva, Advogado e Conselheiro.


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Caratintas, 12/07/2010

Ilma. Diretora da Ouvidoria, Sra. Ana Fragoso,

A peculiar reclamação anexa não pôde ser respondida por carência de elementos. Especificamente, não foi possível localizar o diretor do Setor de Conservação Patrimonial (SPA), e ainda restou infrutífero o pedido de audiência com o gerente predial, tendo em vista que este se encontra em curso de formação. Outrossim, o pedido de análise das gravações das câmeras de segurança está sendo atendido pela Divisão de Operações da Polícia Judiciária (DeOPJ1). Contudo, até o presente momento, nada de anormal foi encontrado.

Assim, em atenção à portaria 1064/88, encaminho-lhe a reclamação física recebida pelo Setor de Reclamações Epistolares, para vossa apreciação.
Att., Fernanda Lemos, analista.


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Caratintas, 31/04/2011.

Exmo. Sr. Corregedor Geral, Desembargador Carlos Assumpção,

A par de cumprimentá-lo pela nova comenda recebida, encaminho, em apenso, parte da extensa correspondência há pouco protocolada fisicamente, na qual o Reclamante pretende elogiar o trabalho desempenhado por esta Ouvidoria. Assim e como deve ser, compartilho com V. Exª. a vistosa carta escrita por um dos advogados mais antigos e combativos de nosso Tribunal, o Dr. Francisco Gomes da Silva.

Em tempo, ressalvo apenas que o Reclamante formula requerimentos no bojo de seu elogio, os quais, inobstante todos os esforços despendidos, se encontram além das atribuições desta Ouvidoria.

Respeitosamente, Ana Fragoso, diretora da Ouvidoria Judiciária


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Caratintas, 11/09/2011.

Anotem-se as seguintes providências:

(i) Arquive-se na folha funcional da servidora Ana Fragoso o presente elogio e publique-o nos anais da Ouvidoria, sob-regência deste Desembargador; (ii) oficie-se o Chefe de Segurança do Tribunal para que preste esclarecimentos e, desde já, reforce a vigilância; (iii) oficie-se a comissão de licitações para que, após o aval da Presidência deste Tribunal, elabore licitação para aquisição de câmeras de segurança mais modernas; (iv) oficie-se a Secretaria da Ouvidoria para intimação do Sr. Francisco Gomes da Silva acerca das providências.

Sem mais, Desembargador Corregedor Dr. Carlos Assumpção.


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Caratintas, 17/10/2011.

Exmo. Desembargador Dr. Carlos Assumpção,

Em atenção ao despacho de fls. 37, buscamos o responsável pela manutenção do espelho d’água, o Sr. José Fonseca, vulgo Zéfa. O supracitado funcionário, visivelmente surpreso, não sabemos se motivado pela comitiva que o procurou ou pelo assunto em debate, informou o seguinte: “Que desde o golpe militar de 64, não existem mais carpas no espelho d’água do Tribunal. Que, desde então, todas as carpas foram levadas para a fonte da praça Castelo Branco, no Setor Militar Urbano.”

De toda forma, seguimos à disposição para quaisquer outras providências,

Major Alexandre Dutra, Chefe de Segurança.


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Caratintas, 30/04/2012.

Exmo. Dr. Desembargador Carlos Assumpção,

É com pesar que informamos Vossa Excelência de que não foi possível intimar o Dr. Francisco Gomes da Silva, conforme solicitado, porquanto, este faleceu no ano passado.

Em contato com sua família, fomos informados de que o referido causídico há anos padecia severamente do Mal de Alzheimer. Debilitado, o Dr. Francisco, além de ter perdido grande parte de suas memórias, foi vítima de diversas doenças oportunistas.

Fernanda Rousseff, Secretaria de comunicações.


Leandro Dias Porto Batista
... é advogado e escritor, natural de Brasília, onde vive com sua esposa, não muito distante de sua família, mineira de usos e costumes. De seu gosto pela literatura verte a inspiração para seus contos e crônicas, como As Carpas do Tribunal, conto premiado no concurso cultural Off-FLIP de Paraty.



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Créditos da imagem:
Carpa

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