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Confessionais - parte 3




Silêncios me acalmam. Sou feita de grandes espaços. Não raras vezes desligo a música do rádio do carro e me deixo levar pela quietude do cenário que passa, inebriada em sua espessura fina. Do longe de meu exílio enxergo um mundo submerso em vozerio e sons dispersos. O mundo agoniza. A música não aplaca sua ansiedade mas a evapora. Ela então dilui-se, cerca seus habitantes, penetra-lhes os ouvidos, entra pelas narinas como ar poluído e adensa-se nos pulmões, que a retorna, mais espessa e tumorosa. Quando me encontro em meio às gentes costumo me esconder no silêncio. Aquieto a respiração, nublo o olhar e deixo os ouvidos destoarem o vozear do exterior até atingir a vibração do rumor desconexo. As vozes confundem-se. Palavras mesclam-se e formam um linguajar incompreensível. Risos e gritos esvanecem. O borbulhar da algazarra, assim desfeita, traz aos ouvidos a canção do silêncio. Calo o murmúrio pelo cansaço dos tímpanos. E então o espaço afina-se, atenua-se, rarefaz-se. Respiro a largas arfadas. Uma sonolência se apossa, entope as artérias, quase adormeço. E então, de inopino, uma mão toca meu ombro e sou arrancada de meu casulo para a confusão dos angustiados. Reconheço uma voz que pede passagem pelas cadeiras do auditório. Estremeço. Agito-me. Volto à vida - aquela que fere. E a mesura de um agradecimento insincero não lhe afaga, ou a mim. Hora de sair.  


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Créditos da imagem: Marcello Sahea
"Retrato assêmico de Mariana", 2015.

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