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Confessionais - parte 4


O mergulho.


Dentro faz frio. São nove e onze de um dia nublado. Primavera. Lá fora faz calor. Um calor ameno, desses iguaizinhos a todos os dias de primavera. Uma primavera típica. Estou em frente ao meu computador digitando desesperadamente mais uma parte de meu fracasso. Mais uma frustração para se agregar a todas as outras que tenho acumulado. São 42 primaveras que passaram. 42. Tirando as primeiras seis, não restaram muitas outras de que possa me orgulhar. Numa dela, a de número 30, quase fui feliz de verdade. Era festa. Havia convidado muita gente - na maior parte amigos emprestados, que se foram depois que a festa e aquela parte de minha vida acabou. Das fotos das quais me lembro nenhum hoje resta. Para ser sincera, um casal resta. Sim, tenho que ser menos melodramática, um casal prossegue habitando as minhas primaveras. Faz frio aqui dentro. Tenho demônios para extirpar. Queria falar de fracassos, porque tenho-os somado aos 42 anos que crispam minha testa. Franzo-me. Me sinto uma fruta que resseca. Vivo uma vida ordinária onde os demônios têm horário e usam crachá. Nele, um número. nada melhor do que isto. Sou um número. 42. Hoje sou 42. Quando saio para o almoço tenho a exata noção do meu significado. E naquele lugar insólito onde me escondo, nada é mais revelador. Sou um número de matrícula com a vida devassada pelo computador. E nada do que sai dele é verdadeiro. O que escondo é o que traz tanto frio aqui dentro. Aquilo que ninguém desconfia. São fracassos ordinários, e sucessos ordinários, e a sucessão deles que me integra e perfectibiliza nessa massa carbônica de números ordinários e horários pré-estabelecidos, e horas computadas em bancos de horas que calculam horas para que eu possa gozar de alguma autonomia nas poucas horas vagas. 42. 24/42. os números e os fracassos, meus algozes, e meus pequenos sucessos ordinários. Tudo isso se acomoda em mim. Sou, no fundo, algo que contabiliza ganhos e perdas. Um livro caixa de vida humana, com créditos e débitos a compor. Há alguém aí?


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Créditos da imagem: Marcello Sahea
"Retrato assêmico de Mariana 4". 2015.

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