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Crônica de um Amor Bruto




...O estalo foi alto. Câmara vazia. Senti medo. O som de ferro chocando contra ferro, ainda que fosse um alívio, era perturbador. Antes de puxar o gatilho, eu era invulnerável. Agora, quando o cão do revólver martelou o compartimento vazio do tambor, minhas mãos tremiam e suavam um suor gelado. Ela me olhava com ansiedade nos olhos verde-acinzentados. Sorri um sorriso amarelo. Pus a arma nas mãos dela. O objeto de ferro negro parecia enorme naquelas mãos frágeis. Ela nem parecia ter força para levantar a arma. Abriu o tambor, girou-o com um tapa de leve e fechou rapidamente. Puxou o cão e levou o cano à sua têmpora. “Te amo”, eu disse. Ela apertou os olhos e puxou o gatilho. Nada. Sorriu nervosa. Seus tremores pareciam espasmos. “Eu também”, respondeu por fim. Vencer a morte nos torna prepotentes, sobretudo se já apresentarmos predisposição. Peguei a arma de novo. Beijei sua boca com voracidade, agradecendo a prova de amor. Engatilhei o trinta e dois sem girar o tambor. A roda de ferro se posicionou, encaixando a próxima câmara na culatra. Enfiei o cano na boca. Uma em cinco. Forcei o gatilho. Gosto de pólvora. Tarde demais para desistir. Eu soube imediatamente o que viria a seguir. Sangue e massa encefálica explodiriam na parede branca às minhas costas. Pensei primeiro na camareira do hotel quando entrasse naquele quarto. Engraçado o que se pensa na hora da morte. Os lindos olhos verde-acinzentados me fitavam. O gosto da pólvora aumentava. Acho que uma lágrima escorreu pelas suas bochechas ossudas. Talvez ela também soubesse. Olhei-a no fundo dos olhos. Lamentei estragar a lua-de-mel. Agora era tarde. Tinha pólvora na minha língua. Despedi-me com um gemido gutural e uma piscadela do olho direito. Puxei o gatilho. Ainda pude ouvir o estrondo...



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Créditos da imagem:
"Joe Blow", por Serge Gay Jr

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